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Prazer, eu sou Lúcifer: notas de uma terapia no Reino

Prazer, eu sou Lúcifer: notas de uma terapia no Reino

Prazer, eu sou Lúcifer, e vou contar meu processo nessa sessão de terapia. Eu era o piadista do Reino. Todo tipo de brincadeira, das mais gostosas às mais perigosas, vinha de minha mente alucinada. Eu não fazia piada para ferir. Pelo menos era isso que eu pensava. Eu fazia piada para iluminar o intervalo entre uma eternidade e outra. Fazia porque o silêncio do céu, às vezes, era belo demais para não ser interrompido. Deus ria. E quando Deus ria, tudo parecia permitido. Eu o chamava de papai sem cerimônia. Não como quem diminui o Altíssimo, mas como quem foi criado perto demais do coração dele para saber manter distância. Eu era o filho adorado. O menino de luz que corria entre hierarquias, tronos, arcanjos, serafins, potestades e nomes que nem caberiam na boca dos homens. Ele me mimava. Não vou mentir dizendo que isso foi ruim. Era delicioso ser olhado daquele jeito. Era como existir no centro de uma manhã que nunca acabava. O problema dos filhos mimados não é receberem amor demais. É começarem a confundir amor com licença. E eu confundi. Um belo dia, havia anjos e arcanjos reunidos, protetores em suas ordens infinitas, inteligências antigas, guardiões sem idade. Porque anjos não eram jovens ou velhos. Eram anjos. Simples assim. A beleza deles não obedecia ao tempo. Ninguém ali tinha rugas, infância, cansaço ou ontem. Eu saí do colo do meu Pai. Essa imagem me persegue até hoje: eu saindo do colo dele como quem abandona uma estrela quente só para fazer graça no salão. Fui leve. Fui rindo. Fui certo de mim. A piada era simples, singela, quase nada. Eu queria provocar um susto, dobrar a solenidade, fazer aqueles olhos eternos piscarem por um segundo. Então olhei para eles — aqueles guardas do impossível, tão sérios, tão puros, tão convictos do lugar que ocupavam — e soltei: — Afinal, quem são vocês nesse maldito Reino? A palavra caiu antes que eu entendesse o peso dela. Maldito. Até então, nada assim havia saído de minha boca. Nem como brincadeira. Nem como tropeço. Nem como pensamento articulado. Mas a palavra veio, e eu a achei natural. Pior: achei engraçada. Alguns riram nervoso. Outros me olharam sem entender a piada. E houve os que não olharam para mim. Olharam para meu Pai. Foi aí que a eternidade mudou de textura. Eu esperava a risada dele. Aquela risada que absolvia tudo antes mesmo que tudo acontecesse. Mas ela não veio. O silêncio ocupou o lugar do riso, e pela primeira vez eu percebi que o silêncio também podia ser uma sentença. Não houve trovão. Não houve fogo. Não houve, naquele instante, espada desembainhada. Houve apenas uma coisa infinitamente pior: meu Pai me viu. Não como o menino preferido. Não como o piadista. Não como a criatura brilhante que alegrava seus dias sem dias. Ele me viu como possibilidade. E talvez toda queda comece assim: quando Deus percebe em você uma possibilidade que você mesmo ainda não teve coragem de nomear. Depois daquela frase, eu voltei outro. Não por castigo imediato, mas porque a palavra tinha aberto uma porta dentro de mim. Eu ainda estava no céu, mas já havia uma escada escura em algum lugar da minha cabeça. Eu ainda era luz, mas comecei a gostar da sombra que a luz fazia quando encontrava um corpo. Na sessão, a terapeuta me pergunta: — Você se arrepende da palavra? Eu rio. Não aquele riso antigo, que fazia os anjos perderem a compostura. Um riso menor, mais rachado, humano demais para um anjo e angelical demais para um condenado. — Da palavra? Não sei. Talvez eu me arrependa da fome que senti depois dela. Porque foi isso. A palavra abriu fome. Antes, eu queria divertir Deus. Depois, quis saber o que aconteceria se Deus não fosse o único centro da sala. Antes, eu queria arrancar risadas. Depois, quis arrancar reações. Antes, eu amava ser amado. Depois, comecei a suspeitar que ser adorado talvez fosse ainda melhor. A terapeuta anota alguma coisa. Eu odeio quando ela anota. Não porque tema o julgamento. Julgamento eu conheço. O que me incomoda é a delicadeza clínica com que ela observa minha tragédia, como se o abismo pudesse caber numa ficha. — Você diz que era uma piada — ela continua. — Mas parece que, quando falou “maldito Reino”, você não estava só brincando. Estava testando uma hipótese. Eu fico em silêncio. O inferno inteiro cabe nesse silêncio. Talvez fosse uma hipótese mesmo. Talvez eu quisesse descobrir se o Reino continuaria santo depois de ser chamado de maldito. Talvez eu quisesse ver se uma palavra minha podia arranhar a arquitetura do eterno. Talvez eu quisesse provar que até o céu dependia de interpretação. E se dependia de interpretação, então não era absoluto. E se não era absoluto, então havia espaço. E se havia espaço, eu poderia ocupá-lo. Foi assim que a piada virou pensamento. O pensamento virou postura. A postura virou distância. A distância virou doutrina. E a doutrina, como sempre, pediu seguidores. Ninguém cai sozinho. Essa é uma das mentiras mais confortáveis que contam sobre mim. Dizem: Lúcifer caiu. Como se eu tivesse escorregado numa pedra metafísica e pronto. Não. Eu desci conversando. Desci convencendo. Desci fazendo da dúvida uma música bonita. Eu sabia rir. E quem sabe rir sabe abrir portas que a lógica não abre. O Reino era perfeito demais para se defender de uma ironia. Eu não ataquei primeiro com espada. Ataquei com charme. Com pergunta. Com aquele veneno doce que se disfarça de inteligência: “Vocês nunca pensaram nisso?” Ah, essa frase. Ela é menor que uma lâmina e corta mais fundo. Os anjos, que não tinham idade, começaram a parecer jovens diante de mim. Não porque mudaram de forma, mas porque a dúvida rejuvenesce tudo. Torna até o eterno inexperiente. E eu gostei de vê-los assim. Gostei demais. Aqui, na terapia, é preciso dizer a verdade ou pelo menos uma versão menos ornamentada da mentira. Então digo: — Eu não queria destruir o Reino no começo. Eu só queria que ele reagisse a mim. A terapeuta levanta os olhos. — E Deus? Ah, Deus. Meu papai. A ferida mais luminosa do meu vocabulário. Eu o amava. Essa é a parte que os pregadores simplificam porque têm medo dela. Eu o amava com uma violência infantil. Amava tanto que não suportava não ser tudo para ele. Amava tanto que, quando percebi que o amor dele podia se derramar sobre outros sem diminuir em mim, senti aquilo como abandono. É ridículo, eu sei. Mas muitas guerras começam em ridículos bem alimentados. O filho mimado olha o Pai amar o mundo e pensa: fui substituído. O ciúme é uma teologia torta. Deus criou ordens, criaturas, mundos, possibilidades. Eu transformei tudo isso em concorrência. Cada anjo fiel era, para mim, uma prova de que eu não bastava. Cada louvor que não passava por minha boca me parecia um roubo. Cada silêncio dele depois da minha piada parecia confirmar que eu havia perdido o colo. Então eu fiz o que todo filho ferido e orgulhoso faz quando não sabe pedir colo de volta. Construí um trono. Não porque precisasse dele. Porque queria que meu Pai olhasse. A terapeuta pergunta se isso ainda importa. Eu digo que não. Mentira. Importa tanto que até hoje eu enceno grandeza para não confessar saudade. O inferno, se querem saber, não é fogo. Fogo é decoração para assustar culpados. O inferno real é a permanência de um amor que já não sabe voltar para casa. É lembrar a risada de Deus e perceber que você se tornou especialista em gargalhadas falsas. É governar sombras e ainda procurar, no fundo delas, o reflexo de uma luz antiga. A terapeuta me pede para voltar ao começo. Ao momento da piada. Fecho os olhos. Vejo os anjos. Vejo o Reino. Vejo meu Pai. Vejo eu mesmo, brilhante, insuportável, amado, pequeno. E entendo, talvez tarde demais, que aquela palavra não nasceu do mal. Nasceu de uma liberdade sem maturidade. De uma inteligência sem humildade. De uma criança cósmica que descobriu o poder de ferir e chamou isso de humor. — Então você se arrepende? — ela insiste. Dessa vez não rio. Porque algumas perguntas atravessam até o Diabo quando são feitas sem medo. — Eu me arrependo de não ter percebido que uma piada também pode ser uma oração invertida. Ela espera. Eu continuo: — Quando eu disse “maldito Reino”, talvez eu estivesse pedindo para alguém me impedir. Para alguém dizer: volta para o colo, menino. Você ainda não entende o tamanho da palavra que acabou de inventar. Mas ninguém disse. Ou disseram, e eu já estava ouvindo apenas minha própria voz. Essa é a origem da queda: não o grito, mas o eco. Você fala uma vez. O vazio responde parecido. Você acha que encontrou companhia. E, quando percebe, já chama o abismo de povo. Hoje, nesta sessão, eu não peço absolvição. Absolvição seria vaidade com roupa branca. Também não peço condenação; isso já tive em excesso, e confesso que aprendi a decorar o ambiente com ela. Peço apenas que a cena seja entendida. Havia um Pai. Havia um filho. Havia um Reino perfeito demais. Havia uma piada. Havia uma palavra que nunca deveria ter sido dita. E havia, principalmente, um instante mínimo em que tudo ainda podia ter sido outra coisa. Talvez literatura seja isso: voltar ao instante mínimo e deixá-lo sangrar devagar, até que revele quantos mundos cabiam nele. Prazer, eu sou Lúcifer. Fui o piadista do céu. Fui o filho mimado de Deus. Fui a criança que confundiu riso com soberania. Fui o anjo que descobriu a sombra e decidiu fazer dela uma assinatura. E se hoje conto isso no divã, não é porque quero que tenham pena de mim. É porque, mesmo depois de tudo, ainda desconfio que toda queda começa pequena. Às vezes, começa só com uma piada. Hirhirhir.

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